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sexta-feira, 5 de março de 2010, 15:42:01
União contra os saques
Revoltados com a ausência do Estado após o terremoto, chilenos montam barricadas e até fazem justiça com as próprias mãosAdvogados, comerciantes, eletricistas, pedreiros e estudantes decidiram pegar em armas e tomar o lugar da ausente polícia do Chile nas ruas de Concepción, uma das cidades mais atingidas pelo terremoto de sábado. Um pequeno exército de cidadãos revoltados com saques desenfreados tenta proteger o comércio e as residências de delinquentes, que aterrorizam a população mesmo sob o toque de recolher.

Homens que sequer sabem atirar guarnecem casas e ruas armados com revólveres e espingardas. Antes das 7h (mesmo horário no Brasil), Roberto Ibañez, advogado, assume a vigilância da esquina das ruas Barros Arana e Serrano, no centro de Concepción. Ele carrega um revólver antigo.

– Nunca usei. Pertencia a meu pai, mas, se precisar, atiro sim – garante.

Vigas de concreto, letreiros, cercas e tijolos – entulho deixado pelo terremoto – agora viraram a trincheira de quem resolveu fazer justiça, se necessário com as próprias mãos.

– Sei do risco que corremos, mas prefiro proteger minha família e garantir o meu negócio – conta o padeiro Felipe Ardoino.

A estratégia foi planejada com cuidado. Em cada esquina, uma barricada impede a passagem de veículos. Eles se revezam na vigilância – são pelo menos quatro pessoas por turno. Quem não tem arma de fogo usa barras de ferro. Bandeiras do Chile são estendidas em mastros, e faixas brancas amarradas no antebraço distinguem os moradores dos estranhos. Na primeira noite após o terremoto, criminosos invadiram dezenas de sobrados e edifícios no bairro Higueras, em Talcahuano, perto de Concepción. No dia seguinte, moradores isolaram as ruas com escombros de casas e pneus. Não houve mais roubos, apenas tentativas.

– Aqui não entram mais. Ontem pegamos quatro pivetes. Batemos na canela, nas pernas. Esses não vão andar tão rápido – diz Micael Macaya, chileno que morou por 30 anos em Salvador, na Bahia, e é responsável pelo turno da noite em uma das ruas. Pergunta: mas esse não é o trabalho da polícia?

– Sim, mas eles desapareceram. A gente pega o bandido, bate, dá uns tabefes e depois leva até onde houver um posto do exército – explica o eletricista de 1m94 cm.

Com a ajuda do exército, o comércio tenta se reerguer da catástrofe e da onda de saques. Pela primeira vez nessa semana, a volta do fornecimento de luz permitiu que postos de combustíveis da rede Copec abrissem, mas as bombas só funcionaram depois que o gerente da empresa em Concepción, Alono Fernández, recebeu a garantia do exército de que a entrada seria controlada por militares.

– Ainda não temos condições de manter o atendimento sem a ajuda deles. O risco de saque e invasão é enorme – diz Fernández.

Brasileiro perdeu tudo no tremor

As casas de câmbio continuam fechadas, mas os caixas eletrônicos das agências do banco estatal foram alimentados com dinheiro ontem. As filas rodeavam prédios e se estendiam por quarteirões. A falta de dinheiro nas mãos dos chilenos transformou alimentos e materiais de construção em moeda de troca, reavivando a antiga prática do escambo. Nos pequenos mercados, perto da estação ferroviária, uma garrafa de água vale um pacote de cigarros Fox, e madeira para escorar a casa pode ser trocada por arroz e azeite. Não há, no entanto, legumes, frutas e alimentos perecíveis.

A maior rede de farmácias do Chile, a Cruz Verde, abriu uma de suas unidades no centro de Concepción. O atendimento era feito por uma janela. Clientes com uma lista de compras mais extensa puderam entrar, monitorados por soldados. As outras quatro filiais não abriram – os prédios ficaram em ruínas. Fachadas de lojas e supermercados de Concepción amanheceram pichadas com a frase “Aqui já saquearam”, provavelmente escrita pelos próprios donos. Em outros locais, como na escola adventista primária de Maule, os muros foram pintados com um aviso: perigo de queda. Da rua, se avista o interior das salas dos pisos superiores. A violência do sismo derrubou quadro-negro, cadeiras e mesas. Para o edifício de cinco andares, só resta a implosão.

O brasileiro Daniel Covo de França é um dos quase 15 mil desabrigados de Concepción. O prédio de 12 andares em que morava com a família está condenado. Rachaduras cortam as laterais de cima a baixo. Ontem, ele tentou remover móveis e roupas do apartamento, mas os bombeiros impediram a passagem. Uma avaliação de engenheiros definiu o destino do edifício: explosivos o derrubarão.

– Tudo o que conquistei aqui está perdido. Saí de casa depois do terremoto e não voltei mais – lamenta França, abrigado com a família em uma igreja.


ZH

 
 
 

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